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Intolerância religiosa: vigiando e punindo

Vanda Machado

 

Seminário “Racismo, Xenofobia e Intolerância”, Hotel Bahia Othon, Salvador, 20 de novembro de 2000

 

 “Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão o que mais assusta.”

(Nelson Mandela)

 

 

A esfinge africana no Brasil

Quem somos  nós? Qual é a nossa história? Qual é a verdadeira participação do negro da formação da  nação brasileira? Qual é o cognitivo da sociedade em relação ao afrodescendente, nossa cultura e nossa religião? Qual é o limite de tolerância para a nossa diferença? Como descer aos infernos  dos brancos para encontrar a alma negra escondida pelo  colonizador? Alma empanada pelo racismo e a intolerância de cada dia ?

É sabido que “o racismo não tem a ver diretamente com a questão das diferenças. O que leva ao racismo não parece ser a incapacidade para suportar a diferença, pelo contrário, o que leva ao racismo é ver o deferente tornar-se o mesmo com direitos iguais. É ver o outro como muito parecido, por isso sentir-se ameaçado na sua identidade, como também no seu espaço, na sua hierarquia social. ( Míriam Chnaiderman (l996: 85).

Dizendo de outra forma, o  que assusta a “sociedade branca” é o negro  poder mostrar-se com todo seu potencial de ser. É imperativo básico, distinguir as culturas africanas como aquelas que existem e resistem independente do tempo e espaço físico.

Partindo deste princípio, faz-se necessário a apreensão da realidade sócio cultural brasileira e, ao mesmo tempo,  o  propósito de compreender a configuração  da cultura africana, recriada pelo contingente escravizado, expatriado para o Brasil.

Configuração cultural,  composta de padrões de diversas etnias  africanas mais ou menos ajustadas e funcionalmente interrelacionadas. Configuração que resultou de uma  massa de negros trasladados da Africa para as plantações e para as minas, transformando-os numa enorme força de trabalho que serviria de base para a construção panóptica da sociedade brasileira.

De acordo com registros, os africanos possuíam e possuem costumes diferentes dos costumes europeus. A sua cultura, seu modo de vida, sua qualificação tecnológica foi adulterada da sua própria forma, por uma ideologia que pereniza condições de desigualdade até os nossos dias. O antagonismo foi estabelecido no sentido de tornar o negro intencionalmente inferior. É possível que  o ponto fundamental de tudo fosse a consciência da adulteração de uma cultura diferenciada e de um conhecimento exemplar, que não se opunha ao europeu. É preciso observar o indivíduo . Observar sempre qualquer mudança pode ser fatal neste processo de tirar-lhe a alma. A expansão colonialista, portanto, não poupou esforços para aviltar, com o seu  mecanismo  de aculturação compulsória, a identidade cultural africana.

 

Lição do panóptipo

Para Foulcaut a formação da sociedade é disciplinar e está ligada a um certo número de amplos processos históricos no interior dos quais ela tem lugar e referencias para manutenção do que pode ser estabelecido. As referencias por sua vez estão contidas nos processos econômicos ,jurídico-político, científicos, enfim. De uma   maneira geral pode-se  admitir que as disciplinas são técnicas para “assegurar a ordenação das multiplicidades humanas”. A aculturação foi um dos caminhos encontrados pelo poder para manter cada um em seu lugar. Nestes processos não há nada de excepcional. Qualquer sistema de poder se coloca com o mesmo problema. O que muda no caso da sociedade brasileira  e o modo como foi construído  a  aculturação, o racismo, a  intolerância  e seus efeito.

A aculturação que foi seguida pela dominação despótica, pela doutrinação religiosa e pela “miscigenação racial”. Mecanismos, condições super opressivas de compulsão aculturativa foram criadas para legitimar o engajamento dos negros no novo sistema econômico da relação de produção escravista. Milhares de etnia foram incorporadas à macroeconomia lusitana como um vasto  “proletariado externo”. Esta força de trabalho foi utilizada nas condições mais espoliativas para a expansão do domínio europeu no “novo mundo”.

Em verdade, o processo não foi simples diante da luta dos negros pela manutenção dos seus valores, dos seus costumes e da sua prática religiosa. Isto,  quando não preferiam fugir, arriscando-se à morte pela liberdade. Tal fato, no entanto, tem sido alinhavado pela história oficial, num continuo processo de desculturação.

Desconhecer este mecanismo, seria desconhecer os mecanismos profundos do processo desculturador  e ficar na periferia dos eventos. Seria ignorar a política ultramarina das nações européias. Políticas econômicas, se articularam organicamente com o corpo da doutrina de economia, que se desenvolveu e dominou na Europa desde os descobrimentos até a revolução industrial. Não se pode perder de vista, entretanto, que para a expansão ultramarina acontecer, predominou o trabalho escravo, onde o negro africano viabilizou a produção de riquezas rentáveis para a exportação. Contudo, tal mecanismo implicou na manutenção e expansão da escravidão.

Manutenção que se fez difícil pela insurgência do negro que buscava principalmente, pela prática da sua religião, um modo de encontrar consigo, com seus compatriotas  preservando a sua cultura.  É neste contexto, entretanto, que se faz efetiva a dominação do negro, o qual enfrenta o processo de desculturação  que o separa da convivência dos seus próprios valores, enquanto os “iguala” compulsoriamente na relação hegemônica, que é branca.

No processo de “igualar” o negro compulsoriamente, não pode  ser desprezado o papel da religião oficial, da igreja, que se tornou a maior aliada do sistema escravagista monopolizador da terra. Neste sentido,  o grande feito do sistema, foi manter as relações político-econômicas do capitalismo de tal modo que pudesse garantir a reprodução da sociedade em sua “harmonia de desigualdade e contradições”.

Nesta perspectiva a organização social, desempenha o seu papel,  redistribuindo e reclassificando continuamente as pessoas, famílias e grupos, em termos de sexo, etnia e classe social. Isto significa ainda que na reprodução social da vida, na fábrica, na escola, igreja e quartel e outras esferas da sociedade reproduzem ainda  com mais “zelo” as funções de negros e funções de brancos.

Estas funções são carregadas de atributos que cada um e todos possuem de si mesmo e uns em relação aos outros. O branco procura encontrar no próprio negro, os motivos da distância social, do preconceito e das tensões que se revelam sutis ou não, nas relações entre ambos.

Deste modo, a identidade do branco contém um reflexo da identidade que ele imputa ao negro. É preciso manter o negro a distância, custe o que custar. É preciso barrar. O negro não pode ficar parecido com o branco. Parecido é a palavra chave.  Aqui o africano se transformou em negro, “mulato” ou “pardo”. Ele que fique no seu lugar. Este é o núcleo do universo social tenso no qual o negro aparece como um problema para  si mesmo e para o branco.

 

Cada macaco no seu galho…

Da mesma forma que as relações sociais, ou estruturais político econômicas, também a religião e os elementos culturais são aviltados e reproduzidos segundo as condições e exigências das forças que dominam a sociedade Vejamos o que descreve Bastide em As América Negras, (p. 182,183)

“…Nas regiões de grande povoamento de cor, os negros, porque se sentem “diferentes”, preferem viver a parte e fora do controle dos brancos. Uma instituição, de origem católica, que regula as relações interfaciais de maneira a evitar todo choque traumatizando entre os indivíduos , é o “apadrinhamento”; o negro da classe  baixa, escolhe para seus filhos padrinhos e madrinhas pertencentes à classe dos brancos, mais elevada, e como o parentesco espiritual ainda é considerado mais importante do que o parentesco carnal, os brancos, e os negros tem entre si, relações afetivas e se ajudam mutuamente; mas por outro lado, como o apadrinhamento se faz numa linha hierárquica, esta afetividade não impede a subordinação de uma cor a outra, o que faz com que o negro não espere do branco senão favores, não lhes copie o modelo de vida; não tentam integrar-se ao grupo, preferindo ficar “entre os seus” onde não sofrerá, na verdade qualquer frustração, já que evita a luta.  A festa, por outro lado, mistura bem, numa mesma alegria, as etnias e as cores, mas cada um fica separado; nas procissões religiosas, as confrarias dos negros vem na frente e a confraria dos brancos vem em seguida, com as autoridades Municipais; os brancos dançam nos salões, os negros na rua; as cores se acotovelam mas não se fundem verdadeiramente.

Todos os cuidados são tomados para que não haja mistura. Na verdade, a possível tolerância, traz no seu bojo um princípio de “ritualidade de hospitalidade”. São parceiro desiguais da sociedade. Estamos nos acotovelando, mas estamos aqui. Muitas vezes o que parece sincretismo e subserviência, também pode ser classificado como resistência, ou  melhor dizendo, o fato de estar ali juntos no mesmo templo religioso na verdade cada um está na sua.

Na lavagem do Bonfim, por exemplo, houve um tempo em que o negro foi apenas parte do cortejo que justificava  a bela situação econômica e social do senhor. Hoje não. A sua presença significa: Nós também temos uma religião. É assim que nos  vestimos. Não trocamos nossas roupas religiosas para entrar na  igreja dos brancos. Nós não nos escondemos. Isto não acontece sem conflitos e punições. A gente as vezes nem se dá conta por que estamos sendo punidos . Mas os intolerantes sabem por que o fazem. O historiador Manolo Florentino diz que os poderosos ( (precisam?) ter quem se situe embaixo para se sentirem poderosos e livres.

 

Abrindo e limpando caminhos

Busca-se uma mudança na sociedade. Mas é claro, que a  mudança  do cognitivo da sociedade não pode ser esperado como uma iniciativa das elites. Nós é que temos de nos conscientizar desta necessidade. Quem somos nós? Qual é a nossa história? Temos que nos perguntar sempre para não perder o prumo e o rumo.

Porque chegamos a esta situação de auto-vigilancia, até que sabemos. A eficácia também está comprovada. Entretanto, vale a pena continuar investigando, como. Como o poder conseguiu nos colocar nesta estado de ignorância de nós mesmos? O que foi ganho com a nossa privação cultural, e com o nosso desamor próprio? É preciso compreender o fenômeno, para uma desconstrução quase niilista. Caso contrario qualquer tentativa de reparação pode tornar-se um ato inócuo. Por que desconstruir? O que desconstruir? Para construir o que? Estamos prontos e em série presos no  “panótipo”.

O panótipo, segundo Foucaul “é uma maquina maravilhosa que a partir dos desejos mais diversos, possui efeitos homogêneos de poder. “Há sempre um dispositivo que assegura a dissimetria, o desequilíbrio, a diferença. Pouco importa consequentemente, quem exerce o poder. Importante é espionar e punir. Agora, já não se faz necessário o peso das “casas de segurança” . O próprio indivíduo tranca-se no medo que lhe foi imposto pela ignorância da sua própria identidade, pela onipresença da vigilância e punição.  A ignorância é uma garantia da ordem. Quem somos nós?

É possível perceber sem dificuldade as máscaras e os horrores do  escravismo. A construção do panótipo parece mais leve. Afinal tudo  é  estabelecido no sentido de manter a ” harmonia da sociedade”. É possível perceber ainda que o escravismo, resultou um efeito para a Europa, outro para o continente africano e outro para o Brasil. Aqui os nossos ancestrais foram separados como peças utilitárias  e vendidas no mercado. A Igreja , parceira neste “missão salvadora” de si própria, proibia a religião ancestral, batizando compulsoriamente, trocando o nome por uma nome de santo cristão.

Ter um nome é existir. Aliás esta é uma reparação grandiosa que contempla o iniciado na religião dos orixás. O “dia do nome” do iaô, juntamente com o dia da entrada é um dia muito especial no terreiro. O próprio iaô não sabe quando é a sua “entrada”, mas o dia da saída, todo mundo termina sabendo. É um dia de ansiedade e alívio. É o termino do “sacrifício” das obrigações. É a proximidade no renascimento, da volta da viagem, à ancestralidade. Sacrifício, na verdade é o modo de falar. Enquanto recolhido todo iaô é tratado como príncipes e princesas. Foram os melhores dias da minha vida. O “dia do nome” ou o “dia da saída”, é como se fosse precedida da  volta de um útero  transcendental  para um nascimento  de um ser humano culturalmente inteiro. Todos esperam. A comunidade, todos os mais velhos e convidados ilustres de outros terreiros.

A alma ancestral está de volta. “Tomar o nome do orixá” é uma honra. É uma honra concedida a religiosos importantes de outro terreiro do da própria casa.  Diante  de uma assistência reunida. O iniciado é levado para o centro da sala. Perguntado o nome, primeiro, o iniciado responde baixinho , num quase sussurro. Perguntado novamente, ou melhor numa terceira tentativa, o iaô gira o corpo sobre si mesmo, pula e “grita bem alto o nome que está trazendo para que se ouça na cidade, nos palácios e no mercado”. Ao ouvir o nome, toda a assistência aplaude e roncam os atabaques. Os iniciados de pouco tempo de sacerdócio e alguns convidados entram em transe. Ao reconhecer, no nome que foi gritado, os mais velhos, lembram de ancestrais, portadores do mesmo nome, suas qualidades e seu prestígio. Lembram as suas disposições morais e  intelectuais e explicarão aos mais novos o significado do “nome”.

O nome do meu orixá foi tomado pelo Pai Flaviano de Nanã. Nós nos consideramos de modo especial.  Foi com grande alegria, foi com muita emoção que  no dia seguinte fiquei sabendo do meu nome religioso._ “Oxum Tunsé”  (tunxê), este é o seu urukó , seu novo nome. Daqui por diante as pessoas aqui vão lhe tratar por este nome”. A pergunta foi inevitável.- O que significa este nome?  Mãe Stella explicou-me com paciência de quem conversa com alguém que está começando a crescer. Foi bom ficar sabendo que o nome nagô significa para a reparação da minha alma ancestral  e da compreensão  da minha cidadania.

Mas do que o término da iniciação formal, o momento vale como o início de uma nova existência: O iaô agora  é alguém, alguém especial. Tem uma nova família, sua “família de  santo”.  tem um nome e começa um novo sonho, um projeto de vida, seja qual for a sua idade. Este é um trabalho lento que envolve toda comunidade. Até que atinja a “maioridade” com  as suas “obrigações de sete anos”. estará sendo criado pela comunidade que lhe ensinará regras e os valores do grupo junto com as características que se esperam decorrentes da proximidade com o seu orixá tutelar.

 

Um corpo dócil e sem alma ancestral

A partir deste recorte que fazemos do assunto em questão, fica claro o prejuízo causado pela vigilância da igreja. O africano antes de vir para a América, ele era um ser inteiro de corpo e alma livre. Escravizado , ficava só a metade. Sem alma até mesmo quando o negro era chamado para ficar ao lado de Olorum, seu lugar era fora do “sagrado”.  Nem  o iku (a morte) , fazia relaxar a vigilância.

O panótipo podia mudar de forma. Aliás sempre muda de forma. O armazém  ainda na Africa, ou os armazéns onde esperavam os fazendeiros que já se tornariam seus “diletos donos”. Os tumbeiros, já faziam lembrar as gaiolas que deram origem as prisões. Gaiola, navio, favela, Carandirus,  ou as nossas invasões é tudo a mesma coisa.  Tudo serve para desinvidualizar o poder e fazer a “maquinaria” funcionar.

Sem nome, sem alma ancestral, tudo pode parecer mais fácil se não fosse o desejo incontido da liberdade. A nossa religião também nos propiciou esta retomada, afirmando uma nova relação de ser  no mundo. Na verdade, nos foi roubada a alma ancestral, para que fosse utilizado apenas um “corpo dócil para o trabalho escravo.

Com o tempo, a maquinaria  reproduz mecanicamente, uma sujeição que nasce de uma “relação fictícia”. De tal modo, que não se faz necessário recorrer a força, para obrigar “o bom comportamento”. Temos consciência, estamos sendo vigiados. Sabemos o nosso verdadeiro lugar. Aliás. estamos construindo o nosso lugar. Hoje estamos lutando para sair das gaiolas, antes que estas se transformem em celas de verdade.

Berthan, ficaria maravilhado ao constatar o quanto as instituições panópticas puderam progredir e se tornar tão leves. A eficácia do poder, sua força limitadora é revelada e atualizada na modernidade de sua aplicação. A escola tem um papel de real importância na manutenção do panótipo. A escola hoje, ainda mantém galhardamente seu status de escola jesuítica. Todos sentados, lado a lado. Ninguém se vê. Ninguém se encontra. Experiências são feitas e renovadas de acordo com as necessidades da sociedade. Precisamos de técnicos. Façam-se os técnicos. Não precisamos mais de técnicos. Acabem-se as escolas técnicas. Aqui no nordeste não há problemas. Quando for preciso  técnicos, busca-se no sul. Há uma afirmação corrente. “Eles são mais trabalhadores, principalmente se tiver um sobrenome estrangeiro”. Esta é uma afirmativa perfeita. Se nordestino, paga-se menos. Está resolvido. A educação neste caso tem um duplo papel: marcar desvios, hierarquizar as “qualidades” , as “competências” e “aptidões” mas também castigar e compensar. A escola em todos os níveis, está sempre pronta para qualquer tipo de adestramento. Todos são vigiados pelo poder. Todos fazem tudo igual, exatamente “como seu mestre mandar”. Afinal o vestibular vem aí. É preciso marcar bem marcado o lugar de cada um, desde o início.

Berthan ficaria ainda mais maravilhado ainda com a força da igreja . Tanto como instituição religiosa, como política ou econômica, a maquinaria nunca falhou. É precisa “orar e vigiar”. Qualquer  descuido, e o homem deixa de ser um “temente a Deus”. O olho divino não desvia o seu olhar mais que vigilante. É precisa pagar o dízimo na mesmo proporção do que se ganha. Pobre não pode enganar a Deus. “Deus”, faz sempre um bom negócio na hora da salvação. Ainda bem que orixá não salva. O orixá está à nossa disposição para cuidar de seu filho, apenas porque é filho. Porque tem obrigação de acompanhar seu filho sempre. Mas também não escapamos. Esta condição não impede  o iniciado de sentir-se vigiado. A maquinaria dispara uma espécie de operação padrão, e lá a punição de manifesta.

Há um  comportamento que sempre me chama atenção No Ilê Axé Opo Afonjá. Mãe Stella é a líder de um movimento nacional anti sincretismo. Líder nacional de um movimento de afirmação da religião, da cultura e da tradição dos orixás. Ainda assim, é possível identificar uma ou outra iniciada que continua presa do panótipo e declara: “Quando eu for embora, eu  faço questão da minha missa. Vocês podem até fazer o “axexê” ( ritual fúnebre), mas eu acredito na minha missa. Eu até me comungo sempre. Missa veio deste o princípio do mundo”. Esta afirmação é pronunciada como se a religião católica fosse mais antiga que a religião dos nossos ancestrais.

Isto me lembra a minha condição de “católica infantil”. em São Felipe onde nasci. Toda primeira sexta feira, eu que era da irmandade de Coração de Jesus tinha o obrigação de confessar e comungar. Eu era uma menina muito bem comportado, (infelizmente). Mas na hora que saía do confessionário, ficava um tempo enorme rezando muitas Ave Marias que nem foram recomendadas pelo  Padre Sena. Mas isto para mim era bom. Se eu esquecesce de algum pecado, Deus já sabia. Deus vigiava tudo. Era preciso prevenir o olhar de Deus. Caso contrário a punição era certa.

 

Reproduzindo a intolerância

Fico imaginando a força destruidora destas ações. O certo é que a intolerância religiosa se manifesta com faces indecifráveis. A intolerância doméstica, a intolerância que divide famílias é um fenômeno que me causa constrangimento e receio pela integridade desta instituição. Sempre vou a casa de uma senhora com quase cinqüenta anos de iniciada. Ela ocupa um importante “posto” no terreiro. Na porta da casa, que está localizada dentro do próprio terreiro, há uma pedaço de papel escrito à mão:” Hei, hei, hei, Jesus Cristo é nosso Rei e protege esta casa”. Dentro da casa um quadro mostra um Jesus Cristo com  brilhantes olhos azuis. Ai  pode-se ler a inscrição “Adorai o senhor na sua beleza e santidade”. Perguntei-lhe sobre tantas louvações. Ela baixou os olhos e fez uma cara triste respondendo. – “Foi meu marido e meu filho crente”. Ela está sozinha pelo menos na família “de sangue” que se divide por amor ao Deus cristão.

Há um modo de intolerância religiosa que se manifesta pela deserção de religiosos. Esta sendo comum, religiosos saírem de “casas” que julgaram ser um porto seguro para a sua fé com o trauma de suas “obrigações incompletas”  ou seja com menos de sete anos de iniciado. Há pouco tempo chegou uma senhora já iniciada em outro terreiro pra continuar suas obrigações. Perguntei-lhe discretamente o que teria acontecido. Era só o que a nova irmã esperava, para contar-me a história por inteiro. História que lhe custou “rios de lágrimas”.(E olhe que não é só porque ela é filha de  Oxum).   Sintetizando: todos os membros do terreiro,  a Iyalorixá, Ekedes e Ogãs, todos foram para  uma destas igrejas ditas evangélicas. O terreiro acabou.

Na verdade, a ousadia e a intolerância é um desafio de cada dia. Nem mesmo no Afonjá, onde um grande muro nos faz a guarda para a intimidade de nossos rituais, estamos incólumes desta ousadia A intolerância agressiva, incita a invasão de prosélitos ao terreiro com seus discursos intempestivos. Nós nem de longe queremos importunar ou mesmo impressionar nossos vizinhos de outras religiões. Em contrapartida, a igreja católica  madruga aos Domingos, com seus potentes altos falantes, dirigidos para o Axé Opo Afonjá, acordando o povo  com suas rezas recitadas por vozes fanhosas de mulheres sonolentas.

Como se pode constatar, o propósito vem sendo atingido. A reprodução da intolerância vem se alastrando. Baixar a auto-estima do negro, confundir-lhe a identidade, ridicularizar a religião, com certeza é meio caminho andado   que alimenta a razão para as “desigualdades institucionais”. Com estes ingredientes e mais tantos outros, ora em doses homeopáticas , ora em doses cavalares, o Estado continua sendo bem servido, contando inclusive com leis e  afirmações “cientificas”.

 

Resistindo à falácia científica

O Dr. Nina Rodrigues, por exemplo, professor da Faculdade de Medicina da Bahia,  naturalizava qualquer tipo de “inferioridade” do negro:

 

“o critério cientifico da inferioridade da raça negra, nada tem de comum com a revoltante exploração que dele fizeram os interesses escravistas. Para a ciência não é esta inferioridade mais  do que um fenômeno  de ordem perfeitamente natural, produto da marcha desigual do desenvolvimento filogenético da humanidade”.

 

Esta afirmação do Dr. Nina Rodrigues, nos remete a idéia de perpetuação do poder a partir de pseudo “certezas científicas” .como estas. A inferioridade que ultrapassa a questão simplesmente individual ou étnica  para alcançar as instituições e seus desdobramentos. Por outro lado, se há uma coisa que o afrodescendente, aprende a fazer bem cedo, é ser barrado e continuar caminhando.  Só para ilustrar, imaginemos a cena: dia de festa, é a lavagem do Bonfim. A porta da igreja está fechada. A ordem do Sacerdote católico é expressa: Nada de “baianas” dentro da igreja. Os negros que sempre foram “convidados”, para acompanhando seus senhores nesta missão, de hoje em diante estão fora. Neste caso, o que parece uma atitude servil, causa espanto e até assusta. Imagine também religiosos negros paramentados com suas roupas  especiais. Rendas e rechilieu  brancos brilham com o sol Todos vestidos  para a grande festa, portando vassouras para lavar a igreja do Bonfim. A água das quartinhas espalhando  cheiro  no ar do adro do Bonfim. As angélicas dançam ao vento, e fazem a festa na cabeça altiva da sacerdotisa negra. É um  cenário de mistério e beleza. O que faz esta gente, que tem tanta ciência do que é hierarquia, aceitar semelhante papel num lugar público? O religioso afrodescendente tem uma significativa vivência religiosa com o chão sagrado e por hábito e por extensão, ali também era  lugar. Ali também é nosso lugar, até que não pelo sincretismo porque Oxalá não é Senhor do Bonfim. Nós não somos iguais. Somos diferentes. Somos parecidos porque também temos religião. Por que não dividir o mesmo espaço? Por que a igreja não se portar  pelo menos como anfitriã?

Neste confronto de hierarquias, as  semelhanças e diferenças ficam bem marcadas. O fato do religioso afrodescendente, ser barrado na porta da igreja com suas flores e quartinhas de água de cheiro dá um significado especial ao evento. Socialmente somos parecidos. brancos e negros temos uma religião com valores éticos e morais. Temos um corpo de tradições . Nós temos uma forma nossa de  nos orientarmos para o sagrado. Nós nos orientamos pelos signos de Ifá, e temos liturgia própria. Somos parecidos. Não somos iguais. É  o colapso, que no entanto, nos faz compreender o que sempre ficou “na palha” como diz o nagô. O afrodescendente, na sua “disposição” em  acolher o sagrado cristão não se tornou aceitável. Por outro lado a igreja compreende que a  “disposição” que o afrodescendente manifesta  em acolher a sua fé não o converteu nem o transformou em cristão. Finalmente numa sociedade hierárquica como o Brasil, tudo vai bem, enquanto cada um souber o seu lugar. A vigilância é inevitável. Mas  ninguém abandonou o seu sagrado pelo outro. Estamos juntos porque somos parecidos. Toda sexta feira, a Igreja do Bonfim fica cheinha de filhos de Oxalá. A intolerância fica por um fio. “A porta continua fechada”.

Parecidos ou não, o fato é que a  idéia de naturalizar a inferioridade do negro, é um fantasma que consome a “sociedade branca”.  Ilustrando esta questão, vamos lembrar Oswaldo Aranha  que era um grande amigo de Mãe Aninha, a criadora do Ilê Axé Opo Afonjá. Na verdade,  foi ele quem enquanto Ministro das Relações Exteriores no Estado Novo, abriu as portas do Palácio, para a Iyalorixa que conseguiu  a discriminalização do Candomblé .Imagine, que  mesmo assim, este amigo do religião dos orixás, não ficou livre do preconceito contra a nossa etnia. Vejamos a declaração que o mesmo faz a Ruth Landes:

 

“O Brasil precisa ser corretamente conhecido, especialmente a sua situação política, e já vai estudar os negros, devo dizer que o nosso atraso político que tornou esta ditadura necessária, se explica perfeitamente pelo nosso sangue, negro,  infelizmente por isso estamos tentando expurgar esse sangue; e construirmos uma nação para todos limpando a raça brasileira.”

 

Neste ponto, peço permissão para compartilhar uma fala que ouvi muitas vezes durante a minha infância. Nasci de uma mãe branca com um pai negro. Somos cinco irmãs negras, muito parecidas com meu pai. Era normal ( para os outros)  repetir diante de nós, dirigindo-se a minha mãe. “Eta mulher da barriga suja“. Eu cresci pensando que  era filha de minha mãe com a sujeira de meu pai.  Meu pai, sempre me mostrou o quanto era limpo. Paradoxalmente ele era um pai de santos da igreja católica. Ele era o Antônio Santeiro de São Felipe.

 

Resistindo a intolerância religiosa

A resistência tem um preço alto. A religião oficial conseguiu infundir sua expressão simbólica, produzindo um desnivelamento de valores socioculturais.. Sutilmente e de maneira total, ela obrigou, pelo batismo compulsório, aos novos participantes da sociedade, um “compromisso emocional e intelectual” com o novo sistema de crença. Sistema organizado sobre o que devia fundamentar suas vidas, suas relações com o ambiente e com o senhor. Professando a “mesma fé” e utilizando a mesma linguagem, o colonizador imaginou ter retirado do africano símbolos vitais da sua identidade cultural. Em verdade, antigos africanos, oriundos das mais diversas etnias, desapareceram. Entretanto, o universo cultural permaneceu. A comunicação das chamadas “culturas orais” ou ” tradição viva” mantém um processo interdinâmico pessoal ou integral, que supera a comunicação escrita.

Ainda hoje,  pelo uso da palavra e do gesto, o “povo de orixá” pretende apropriar-se de uma parte importante da força que irriga o universo para suas próprias finalidades. “As palavras são eficazes, pois carregam energias”. Munanga 91086, p. 61)ou sejam palavras formam a estrutura mental de uma tradição. Por estrutura mental da tradição, compreendem-se “as representações coletivas inconscientes de uma civilização que influenciam todas as formas de expressão e ao mesmo tempo constituem a percepção de mundo.” Vansina (1982 p 167). Entre as representações coletivas que mais influenciam a tradição, notamos, sobretudo, uma série de categorias de base que por certo, precedem a experiência dos sentidos: São as do tempo, do espaço, da verdade histórica e da casualidade.Com isto queremos dizer que, ao contrário do que alguns podem pensar, a tradição oral africana, a exemplo dos terreiros de candomblé, não se limita a história, e lendas, ou a relatos mitológicos: A tradição oral é a grande escola da vida e dela se recupera e relaciona todos os aspectos. Ela é, ao mesmo tempo, religião, conhecimento, ciência,  iniciação a arte, história, divertimento e recreação, uma vez que todo pormenor sempre permite à unidade primordial” (Bâ, 1982, p. 183).

A tradição oral, portanto, baseia-se na concepção do homem, do seu lugar e do seu papel no seio do universo. Ela envolve uma visão singular do  mundo – um mundo concebido como um todo, onde todas as coisas se religam e interagem. A cultura africana não é, portanto, algo abstrato que possa ser isolado da vida.

Na verdade este escrito pretende mesmo é dar algumas noticias sobre a intolerância religiosa quase doméstica que presenciamos cada dia. Intolerância que se manifesta como se nada tivesse acontecendo. Peço permissão ao leitor para não teorizar sobre um assunto que nos aflige como religiosa,  como educadora e como cidadã. Causa aflição o fato de em cada família tradicional de religiosos da tradição dos orixás  ou não ter pelo menos um caso de intolerância religiosa. Êmile tem dez anos. No dia da festa de Iemanjá, estava quase escondida assistindo a festa. Chamei-a e perguntei com quem estava.  Ela respondeu que estava sozinha. Por algum tempo fiquei a observar a menina que cantava as cantigas que não sabia (cantamos em iorubá). Ela parecia contente com o que fazia. Mais tarde, perguntei a uma das minhas irmãs sobre Êmile. Contou-me que na casa da menina., a vó é católica. O avô é crente Batista. O tio é testemunha de Jeová. A mãe que é a mais flexível e “gosta” da religião dos orixás, fica com a pior situação na casa. Quase todos os dias, principalmente na hora do almoço,  acontece uma discussão quando cada um defende a sua  Bíblia Com toda esta divisão na família, quem estaria “imperando.” Quem estaria vigiando. Êmile está sozinha, vigiada e punida por acreditar no que  é diferente.

 

Intolerância e visibilidade uma armadilha para fazer calar.

Segundo Foulcaut, o efeito mais importante do Panótipo é induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Isto significa que a visibilidade também pode ser uma armadilha. Uma armadilha que pode arrefecer ânimos até os mais arrebatados. Dizendo de outro modo, quando se faz necessário, um mecanismo adequado dispara e logo um cidadão, pode se tornar um detento um vilão ou um louco social. É tudo muito fácil. Não raro aparece no cenário nacional um líder das etnias e das  camadas inferiores da sociedade o qual ganha uma visibilidade excepcional.  De repente uma super exposição na mídia, verdadeiro “laboratório do poder” lhe dá a consciência de que está sendo visto como um deputado negro, prefeito negro, bispo negro, reitora negra deputado índio. A  notoriedade pode chegar, mas é relativa. Parece que a sociedade esta fazendo uma concessão, oferecendo-lhe uma benesse. Até que ponto ele está sendo  visto como um cidadão brasileiro. Os títulos são todos transitórios e efêmeros. Fora o bispo, são apenas quatro anos para ser vigiado. Em seguida o destino é apagar-se,  tornar-se vilão ou louco social. Isto pode ser apenas uma experiência para “modificar comportamentos” Por falar nisso, onde andam algumas  raridades negras e indígenas que conseguiram visibilidade no cenário  político nacional?

Há uma figura nacional que para não perder a dignidade, precisou  “aceitar” ser um “louco social”. “Rei africano de verdade, Dom Obá II da África, o Brasil só fiou conhecendo no carnaval deste ano, graças ao estudo realizado em Londres por Eduardo Silva. A aula inaugural ficou por conta da celebração nagô exibida no sambódromo do Rio de Janeiro, pela Mangueira. O “ridículo”, “o louco social”, o “príncipe sem reino” o “zuavo brasileiro” de Lençóis, existiu mesmo. Ele esteve atento às disputas  políticas locais entre os coronéis Sá e Calmon.

Nasceu e viveu em Lençóis, de onde viu sair muito diamante .para Paris. O jornalista, o cidadão Cândido da Fonseca Galvão, D. Obá da África, o Príncipe do povo, sabia impor a sua condição real. Mais tarde, alferes de volta da guerra do Paraguai, risonho,  ufano e líder, se fazia receber com honras militares no Paço da Quinta da Boa Vista, em audiências concedidas pelo imperador, lá estava ele, e nesta época “compenetrado de estranhas idéias de justiça social”.  A ordem foi que a guarda  ”apresentasse armas” . “Ele é um louco.” Um louco assustador muito parecido com D. Pedro. O rei. D. Obá teve seu reino em Oió, terra de Xangô na África.  Xangô que é orixá porque é também herói civilizador. Xangô é um ancestral de D. Obá.

Histórias verdadeiras como esta, não nos são  contadas pela escola. Não há  modelos exemplares para a criança afro descendente. “A religião dos orixás não deve ser  levada a serio”. É preciso vigilância para manter a nossa baixa  a nossa auto-estima. Sempre se soube da possibilidade do negro se tornar cada vez mais parecido com o branco pela competência . Negros africanos mostraram sua competência política e guerreira no levante dos Malês ou a Revolução dos Búzios. Esta competência nunca foi mostrada. Carregando seus nomes africanos lutaram pela manutenção da identidade étnico-cultural. Morreram quatro negros enforcados. Não há notícias em livros didáticos. Isto significa que a incompetência defendida por Nina Rodrigues nada tem a ver com o principio da inferioridade. Ou como diz Bastide. Não existe cultura inferior, o que existe é concepção de mundo diferentes.

 

Todo ano eles faziam tudo sempre igual 

Todo ano na semana do folclore, muitas escolas baianas se ocupam de apresentar danças dos orixás. Chegam mesmo a convocar familiares iniciados que ingenuamente se prestam ao brinquedo. Neste ano foi um corre corre na rede municipal. Mãe Stella resolveu interferir com a seguinte carta:

 

Salvador, 12 de agosto de 2000

Do Ilê Axé Opo Afonjá

Para a Professora Ana Tedesco

D/D Assessora  Especial da SMEC

Assunto: Preservação da Religião dos Orixás

 

Prezada Senhora:

 

Neste momento,  as escolas preparam suas festas para a Semana do Folclore. Muitas escolas com orientação desta SMEC para colocar neste brinquedo a Religião dos Orixás. Nosso crença possui teologia, liturgia e rituais como qualquer outra religião. Portanto a nossa religião não pode ser desconsiderada  quando este sistema de educação, transformado pelo respeito à alteridade, pretende sintonizar-se com a vocação da Cidade de Salvador, a segunda cidade mais negra do mundo.

Por este motivo solicitamos esclarecimentos aos professores desta rede, para que sejam evitados equívocos desta natureza. Agradecemos profundamente pela contribuição desta instituição na guarda da nossa cultura e tradição religiosa.

 

 Atenciosamente

Stella Azevedo

Iyalorixá do Ilê Axé Opo Afonjá

 

 

A resposta da Secretaria de Educação da Prefeitura de Salvador foi rápida. Neste ano letivo a Semana do Folclore  foi pelo menos diferente. As coisas começam a se transformar.

 

 

Ogum, ferreiro e herói civilizatório

Na verdade, a grande questão é o desconhecimento da história e da cultura africana.  Estamos construindo o nosso lugar com a credibilidade da cultura dos nossos ancestrais. Conhecer os caminhos corretos de nossa religião parece um bom começo. Tenho especial atenção quando alguém se refere ao seu orixá.  Numa conversa sobre o orixá Ogun, ouvi o que se segue:

-  Meu pai não é brincadeira. Ele é como Exu. Eu não gosto nem de ficar falando nome dele assim…

- Olhe o meu Ogum é chegado  a água. É por isso que eu tenho medo de água.

- Ogum? Ogum  é um orixá que não escolhe a quem ajudar. Ajuda até desordeiros e assassinos . Tudo quanto é gente desastrado é de Ogum,

- Ogum é o que abre os caminhos. Quando Ogum se aborrece com o filho ele castiga mesmo. Ele bate. Ele quebra a cara do filho.

 

Vejamos neste caso, o panótipo não se apresenta mais como uma figura arquitetural na composição destes pensamentos, conforme denuncia Foucault. Estes pensamentos são constituídos da internalização da disciplina auto destrutiva. A construção é arquetípica da auto vigilância. O Orixá é o Deus onipresente que vigia e pune. A quem interessa esta individualidade assustadora? Ogum esta comparado a Exu da igreja católica. Esta relação é no mínimo destruidora. A intolerância é uma arma panóptica  contra a afirmação, reparação e crescimento do afrodescendente. O que sabemos de verdade sobre o povo africano  sua cultura, seus conhecimentos, suas riquezas, sua forma de lidar com a terra e suas preciosidades?  Porque tanta vigilância para  manter a nossa privação cultural?

Se pararmos um pouco para pensar no que é o ferro para o mundo por certo teremos algumas surpresas. O conhecimento do ferro esta historicamente  associado ao mundo antigo e muito especialmente a África e a Ogum .O ferro no seu triunfo industrial tem seu princípio na civilização africana . Os “primitivos” trabalharam o ferro na forma de meteorito. O Egito durante muito tempo só conheceu o ferro meteórico. Não se sabe quando o ferro das minas começou  a ser utilizado. Entretanto é verdade que encontram objetos de ferro terrestre entre os blocos da Grande Pirâmide (2.900 aC). Seguindo este pensamento, Mircea Eliade nos informa que o primeiro rei de Angola, segundo a tradição era um rei ferreiro. Na África Ocidental os ferreiros estão relacionados com as sociedades secretas dos homens, gozam de grande prestígio de mágicos e dispõem de uma espécie de clubes fechados.

Um detalhe interessante está no ritual da forja de certos instrumentos. O martelo por exemplo encerra um poder especial .Antes de começar a forjá-lo, o ferreiro recebe de seu cliente um bode e uma certa quantidade de otin (bebida alcoólica) . Este cuidado deve-se ao fato de que este martelo deve fazer justiça quando ferir magicamente um ladrão ou um inimigo pessoal. Do mesmo modo que o Congo, representa a verdadeira civilização do ferro africano. O ferreiro é estimado e desempenha um papel religioso importante: o ferreiro mítico, segundo se presume, introduziu as ferramentas necessárias ao cultivo de solo e, em decorrência desse fato tornou-se” Heroi-Civilizador, um colaborador da obra divina da criação.

Isto significa em síntese, que o ferro quer na sua origem meteórica, quer na sua origem de jazidas superficiais tenha sido conhecido deste o terceiro  milênio aC. O conhecimento do ferro teve conseqüências importantes muito antes de impor-se na historia militar,  política e econômica da humanidade. O símbolo, a imagem e o rito antecipam as aplicações utilitárias da descoberta. Ainda no que diz respeito ao ferro e a Ogum como herói civilizatório, vale ressaltar a sua postura de guerreiro, ferreiro, pesquisador, curador, alquimista e feiticeiro .É o ferreiro que está continuamente construindo e reconstruindo o mundo de acordo com as necessidades humanas.

 

“Quanto à situação pouco estimada que o ferreiro desfruta entre os massais, e outras populações camíticas, cumpre explicá-lo não só pelo fato de que esses povos não praticam a agricultura, mas também pela ambivalência mágico-religiosa do ferro: como todo objeto sagrado é ao mesmo tempo perigoso e benéfico”. ( Mircea Eliade op.cit).

 

De acordo com os mitos, o Primeiro Ferreiro – tido as vezes como o próprio filho do Deus supremo, foi enviado por Deus para dar o último arremate à criação e comunicar aos homens o segredo dos ofícios. “Entre os iorubas, foi,  Ogun o Ferreiro Primordial, quem forjou as primeiras armas, ensinou os homens a caçar e fundou a sociedade secreta de Ogboni (Tegnaes, pp.82 s. In Mircea Eliade). Compreender a história dos nossos ancestrais, implica num largo investimento, na história e na Antropologia cultural como ainda não é ensinada na escola em nenhum nível. Passa pela necessidade de nos reportar à mitologia e a nossa ideologia religiosa para compreender a função do ferreiro, sua função mágico-religiosa, cultural e material. A “civilização” proporcionada pelo  ferreiro, não se reduz à organização do mundo numa ação quase cosmologia. O ferreiro organiza  também a  ordem espiritual de um povo. Ordem espiritual que precisa ser separada da herança panóptica. Certo dia no meio de uma converso que não me lembro bem ouvi de Mãe Stella: “Ogum é o orixá pai da espiritualidade.” Foi aí que senti a necessidade de saber quem é Ogum e o que este orixá representa para a humanidade. Esta ação foi seguida de outras ações que se sucedem na busca da possibilidade da reparação da intolerância religiosa a partir da educação. O meu trabalho na Escola Eugenia Anna dos Santos ou na escola do terreiro como é conhecida,  me deixa de prontidão para  buscar a compreensão da nossa feição cultural, como afrodescendente e como “povo de orixá”

 

Caminho da alegria – Projeto Irê Ayó

O processo cultural herdade do Ilê Axé Opô Afonjá é afro brasileiro e em grande parte transmitido pela oralidade. Oralidade que corresponde à natureza da memória “depósito” de gerações sucessivas, com a mesma força vital  em forma de relato, canto dança poesia, ritmo e emoção, reelaborando a história e a vida no cotidiano.

É justamente a comunidade de terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá que abriga a Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos. Esta Unidade Escolar atende a 350 crianças afrodescendentes de 6 a 14 anos , moradores do terreiro ou adjacências. O terreiro é de exuberante conformação física, reserva paisagística cultural, hoje tombada pelo Patrimônio  Nacional. Pode-se observar que tudo no terreiro dá identidade ao grupo, estabelecendo princípios que visam sempre a melhor relação dos indivíduos com o meio. Neste caso, é possível compreender também, como fator de manutenção da vida, tudo que se refere à construção e uso de quadros de valores morais e éticos. Tais valores podem ser identificados nas relações humanas e sociais: são relações que estabelecem uma forma de organização peculiar, tanto pelo hierarquia, quanto pelas relações interpessoais e de sobrevivência, determinantes e estimulantes da vida comunal.

O Projeto Irê Ayó, ora em implantação nesta escola tem como proposta a aplicação da Dissertação de Mestrado Ilê Axé- Vivência e Invenção Pedagógica – Vanda Machado- Edufba – l999. No segundo ano de implantação  o trabalho mantém a busca da formação de conceito e construção do conhecimento a partir do universo cultural das crianças afrodescendentes. A escola que  atende à orientação sistêmica, possui feição própria. O pensamento de Ausubel. determina ensinar considerando aquilo que a criança já sabe., entretanto não é possível prescindir de um currículo que possa instrumentalizar a criança para ancorar novas idéias e novas aprendizagens significativas, resultado do cruzamento de pensamentos e valores nagô com pensamentos e valores de outras culturas.

Fundamentalmente, o processo de aprendizagem significativa acontece com a formação de conceitos e sua possível transferencia. Note-se, no entanto, que este estudo tem a contribuição de importantes cognitivistas. Entretanto, o trabalho em questão, vai alem do uso da formação envolvida na cognição. Ensinar a partir da cultura da criança implica na ativação de todos os sentidos e das múltiplas inteligências. Justifico também a decisão deste trabalho com o pensamento de Capra (l982,p.404), o qual se adequa perfeitamente à relação do “povo de orixá”  considerando que a nossa visão de mundo está longe da complexidade codificado e do pensamento cartesiano.

Os primeiros achados  desta construção dizem respeito à maneira de como a criança se envolve com a história e a geografia física e humana do terreiro A criança compreende melhor a problematização contextualizada. E quando esta problematização diz respeito a suas experiências e seu contexto cultural, resolver  problemas é uma atividade que lhe traz alegria. Estudos atuais, neste caminho, associam a identificação das habilidades que compõem a inteligência, ao contexto cultural e cognitivo da criança, assim  como o jeito que a criança ouve e atualiza os mitos, como traduz os valores nas diversas linguagens artísticas, ou da maneira segura quando  afirma :” Mo ni dudu ewá!” “Mo ni dudu dara dara” “Sou negro bonito” ” Sou negro legal !” 

 

Desconstruindo a intolerância…

A atualização dos mitos, diz respeito não só aos objetivos conceituais como atitudinais propostos pelos parâmetros curriculares. É neste contexto que os contos mitológicos aprendidos com os “mais velhos” do terreiro nos facilita também a compreensão histórica dos orixás como heróis civilizadores (Petrovich, Machado, Ilê Ifé 2000)

Era uma vez, quando o mundo foi criado, levou muito tempo que não existia nada plantado, pelo homem Aqui morava um homem chamado Okô. Este nome ele recebeu de Olorun.

Um dia Olorun chamou este velho caçador e disse: – Olhe, eu criei o mundo, porém faltam as plantações e eu quero que você assuma esta tarefa. Plantar é uma função muito especial para a construção do mundo. Eu preciso da sua ajuda. Esta tarefa de plantar é sua. E tem mais: eu quero um mundo bonito com muitas plantas verdinhas no chão. Quero árvores fortes com boas sombras, quero flores e frutos saborosos, e não esqueça de tudo que possa servir de remédio.

Okô ficou sentado no chão pensando: – Que grande trabalho Olorun me deu. O que é que eu vou fazer?

Pensou, pensou e depois de muito pensar lembrou de que um dia   nas suas andanças, tinha encontrado um igi opê, um dendezeiro. Uma única palmeira que era a morada do menino do corpo reluzente. Lembrou de que naquele dia, ele teve uma conversa com esse rapazinho:

- Menino, o que você está fazendo aí o tempo todo mexendo a terra?

- Então você não sabe que a terra mexida e plantada dá frutos?

- Plantada como? Perguntou Okô?

-É, a gente arruma semente e tudo…

- Como arruma semente se ainda não existem árvores? Não existe nenhuma planta a não ser esta sua palmeira!

O menino lhe respondeu: – Olhe, para Olorun nada é difícil.

Okô ficou admirado com a sabedoria do menino e foi embora. Quase esqueceu aquele encontro.

Quando Olorun lhe deu esta empreitada, ele pensou logo no menino do corpo reluzente. Voltou ao mesmo lugar e lá estava saindo uma terra mais vermelha. Então Okô perguntou ao menino:

- Porque esta terra está saindo mais vermelha?

- É sinal de que existe algo diferente nas profundezas da terra… Veja onde eu estou cavando agora, observe que a terra é mais seca …agora, esta outra parte está  molhada.. E olha agora o que está saindo… é uma parte mais dura.

- Continue a cavar menino. Vamos cavando sem parar.

Enquanto o menino estava cavando, a madeirinha que estava usando quebrou. Ele aí pelejou, pelejou, esfregou a parte que sobrou no chão e fez uma ponta. Naquele momento estava nascendo o primeiro instrumento agrícola. Com este instrumento os dois começaram a cavar alternadamente. Um cavava, depois o outro cavava… um cavava, depois o outro cavava… Agora tiravam lascas de bem duras do meio da terra. Era o surgimento das lascas de pedra. Parecia que agora tudo podia ficar mais fácil.

Okô resolveu sair um pouco e foi dizendo:

- Vamos ver se fazemos algo melhor para cavar a terra. Vamos ver o que conseguimos fazer com estas lascas de pedra.

O menino do corpo reluzente continuou o trabalho e Okô lhe disse:

- Eu vou embora, veja se você sozinho consegue algo mais eficiente prá gente trabalhar.

Okô foi embora. E pelo caminho ia refletindo em tudo que passara. No outro   dia quando voltou, o menino  estava com um fogo aceso e com vários pedaços de pedra no fogo.

Quando o menino fez o fogo, fez também um canal saindo de dentro do fogo. No que as pedras iam derretendo iam formando novas lâminas. Assim foi criado o ferro. Daí em diante, Okô teve sempre grandes idéias sobre as plantações, sobre a colheita e a lavoura.

E o menino do corpo reluzente? Quem seria o menino do corpo reluzente? Quem seria o menino misterioso e inventor das ferramentas?

O menino só podia seu Ogum; Ogum foi crescendo, aperfeiçoando e criando novas ferramentas para ajudar a cuidar bem da terra. Assim apareceram a enxada, o arado, a foice e tudo quando é de ferramenta. Os dois juntos continuaram trabalhando nas plantações que têm grande importância para a vida do ser humano na terra.

 

Diante de toda esta prosa a respeito da intolerância religiosa, respondo a uma pergunta que já me foi feita muitas vezes. Por que trabalhar  mitos afro-brasileiros na educação? Na verdade os mitos, os itans, as histórias, respondem pelos caminhos de nossa vida como iniciados. Na verdade estes mitos não apontam somente para os mistérios inefáveis da vida. Não responde somente ao sentido do imediato, resguardando dos males do corpo, como mutilação doença  e morte.

Os mitos apontam sobre tudo, os valores e os princípios, capazes de garantir orientação para o melhor caminho da existência social, das relações humanas e soluções de problemas.

Se considerarmos o dicionário, o mito pode ser definido como tradição que, sob a  forma de alegoria, deixa entrever um fato natural ou histórico. O dicionário ainda nos diz que, o mito é a história de um deus, ou de um herói, ou de um acontecimento de origem ancestrálica.

Isso nos faz indagar. Quem é Deus ? E é de Campbel que tomamos a resposta: “Deus é a personificação de um poder modificador ou de um sistema de valores que funciona para a vida humana e para a vida no universo – os poderes de seu próprio corpo e a natureza. Os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano. Os mesmos poderes que animam a nossa vida, animam a vida do mundo”.

Isto significa que o herói mitológico sempre foi uma das necessidades do homem. A cultura afro-brasileira, no seu aspecto religioso, tem como fundamento, muitos mitos para se organizar.  O iniciado pode empenhar-se portanto na manutenção das relações individuais e comunitárias. Através  de contos mitológicos, (histórias dos caminhos), é que chegamos ao conhecimento de nós mesmos e do grupo do qual pertencemos e participamos. E por mais social que sejamos, os mitos africanos mantém o ser humano conectado na unidade da natureza.

Pode-se dizer que paralelamente às experiências culturais pedagógicas, vivenciados na Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, o mito reintegra a criança numa época atemporal. Contudo vale ressaltar que não se trata de uma história na acepção do termo. É uma história exemplar. Finalmente o mito ensina o que está por trás da literatura e das artes. O mito ensina a vida. Ter metas, projetos de vida, passa pelo crescimento de estar vivo e atento às possibilidade de transformação. De modo que as experiências de vida possam sair do plano puramente físico e tenham ressonância no interior do nosso ser e de nossa realidade interna. Que sintamos o prazer de sermos diferentes ou parecido sem ser inferior.

 

 

Conclusão

Quero concluir esta reflexão, compreendendo  que somos considerados personagens manipulados pela vigilância e punição da história da colonização. Pelo o que espelha o panótipo,  é uma condição coletiva internalizada e institucionalizado que serve muito bem o interesse da dominação. Juntos construímos uma nação que nem sempre é uma “mãe gentil”. Participamos ativamente para criar uma economia  e  uma sociedade “livre”. Temos ganho como prêmio, a exclusão e a impossibilidade  de acesso dos bens comuns. O mais grave é que embora lutemos por nossos direitos não temos acesso a justiça no cumprimento das leis. Acredito que só a educação, respaldada também pela história e tradição afro brasileira, poderá possibilitar a construção e o resgate da alma do afrodescente presa dos infernos dos brancos. Só a educação da pluriculturalidade pode fazer dos brasileiros cidadãos pacíficos respeitadores da alteridade e constritores de um mundo melhor.

 

 

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VÍTIMAS DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA DEVEM DENUNCIAR

Mãe Liliana d´Oxum

Do site do SOUESP : http://www.souesp.com.br/Artigos/Discrimina%C3%A7%C3%A3o%20Religiosa.htm


Refletir sobre os possíveis avanços das comunidades de tradição religiosa afro-brasileira é necessário em determinadas situações.

Ao considerarmos os acontecimentos dos últimos vinte anos, desde a proclamação da Constituição Federal, em outubro de 1988, evoluímos bastante quando conseguimos dialogar com o governo, porém, ainda com severos contrastes.

A aproximação do povo de santo com a SJDC – Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania aconteceu em 2005, quando o Ogãn Dr. Hédio Silva Júnior era o Secretário e comprometeu-se na realização do “I Fórum Inter-Religioso para uma Cultura de Paz e Liberdade de Crença”. Vários grupos, de diferentes segmentos religiosos, participaram para garantir seus direitos contra as intolerâncias. Estivemos presentes em vários momentos para assegurar os avanços. Louvamos quando foi realizado o II Fórum, em 2006 e vimos assinada a resolução de sua existência. No entanto, nossas diferenças expostas, continuam sem resposta.
Cedemos ao retrocesso da espera e à falta de interesse por políticas que favoreçam nossas comunidades religiosas.

No dia 31 de março pp., último dia do mês, o atual Secretário da SJDC, Dr. Luiz Antonio Guimarães Marrey, acompanhado por sua assessoria, recebeu um seleto grupo de sacerdotes e sacerdotisas, representantes das várias nações do Candomblé e da Umbanda, para ouvi-los. Estiveram presentes conceituadas lideranças como a Iyalorixá Ada de Omolu, Babalorixá Rozevaldo Menezes, Pai Milton Aguirre, Iyalorixá Luizinha de Nanã, Mameto Kayandewá, Iyalorixá Carmem da Oxum, Mãe Liliana d´Oxum, Babalorixá Karlito de Oxumarê, Babalorixá Ródnei do Oxóssi, Babalorixá Francisco da Oxum, Tata Matâmoride, Babalorixá Antonio Logumfemi Epega, Tata Ugikandê, Ricardo da Oxum , Mãe Dalva do Ogum e outros.

O Secretário informou que estava aberto ao diálogo porque entendeu a necessidade de entendimento entre o trabalho da Secretaria de Justiça e as reivindicações do povo de santo.  Motivado pelas queixas sobre intolerância que se tornaram cada vez mais freqüentes e significativas, perguntou o quê está preocupando as religiões de tradição afro-brasileira, no que tange a liberdade de culto e qual o passo para a garantia de respeito. Várias questões foram levantadas, essencialmente as que fogem às determinações constitucionais, indicadas no artigo 5°, inciso VI, onde lemos: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”.

Queremos estas garantias porque sofremos com a truculência policial, nossos templos são desrespeitosamente invadidos, sofremos coma intolerância e a perseguição de nossas crianças nas escolas, com a intolerância e destrato nos hospitais e órgãos públicos, com a desigualdade na hora de pagar os tributos.

Necessitamos de providências! Não podemos mais calar! Precisamos de avanços em mecanismos políticos, em organização, em consciência! Nossas comunidades sofrem, retrocedem em concessões nas exigências e fiscalizações que desrespeitam nossa cultura. Seria condizente justificar as agressões desmesuradas que prejudicam a vida e a continuidade da tradição do nosso povo?

O avanço constitucional proclamado cedeu ao retrocesso social que sofremos quando somos atacados de forma desigual e desprivilegiada, onde somos desfavorecidos e apontados como malfeitores.
A atitude a ser tomada? DENÚNCIA DE DISCRIMINAÇÃO RELIGIOSA! As questões de discriminação precisam ser trazidas a público. Num Estado laico as pessoas precisam ser educadas para a diversidade religiosa!
Cabem as ações, com convergência das comunidades religiosas afro-brasileiras, envolvidas em tudo o que se permite determinar com participação social. Exigimos respeito e igualdades!

No momento, a SJDC dispõe-se a organizar um Centro de Documentação de Fatos. Para isso, os registros de denúncias são fundamentais. Este é o momento de fazermos! Vamos coletar os documentos denunciando os casos de intolerância que sofremos. Vamos incentivar os que são ou já foram vítimas!
O curso “Direitos e Deveres das Religiões Afro-brasileiras”, realizado pelo CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, ministrado pelo seu Diretor e Ex-Secretário de Justiça, Ogãn Dr. Hédio, indica os seguintes órgãos de denúncia para defesa de nossos direitos:

- Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância – das 9 às 19 hs – de 2ª a 6ª feira – (11) 3311-3555 ou 3556 / 3557 / 3558
- Ouvidoria da Polícia Militar – 0800-177070 – das 9 às 17 hs – de 2
ª a 6ª feira
- Corregedoria da Polícia Militar – 24 hs – (11) 3322-0228 / 0213
- Corregedoria da Polícia Civil – (pedir para falar no plantão) (11) 3231-5536
- Ministério Público – Promotoria de Direitos Humanos – (11) 3119-9512
- Defensoria Pública – Núcleo Cidadania e Direitos Humanos – (11) 4057-4440
- Comissão de Direitos Humanos da OAB Estadual – (11) 3244-2363
- Comissão de Liberdade Religiosa da OAB Estadual – (11) 3244-2013 / 2014 / 2015
- Ouvidoria da Secretaria de Justiça do Estado de São Paulo – das 10 às 17 hs – de 2
ª a 6ª feira – (11) 3291- 2621 / 2617 / 2624

SE VOCÊ FOI VÍTIMA DE DISCRIMINAÇÃO RELIGIOSA, DENUNCIE

¹ Jornalista – Mtb 29.840 – Sacerdotisa de Umbanda – Iyá Ominarê – Dirigente Espiritual da Associação Cultural, Religiosa e Beneficente – Centro de Mamãe Oxum, Pai Guiné e Caboclo da Pedra Branca – “Comunidade da Pedra Branca”- Sócio-fundadora e Secretária Adjunta do GVTR- Grupo de Valorização do Trabalho em Rede, associada à Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde – Secretária Geral do Movimento Chega – Diretora de Conteúdo do Portal do Candomblé – Titular da Comissão de Comunicação e Relações Públicas do Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira/SP.

 Intolerância Religiosa – Uma realidade brasileira

Márcio Alexandre M. Gualberto – 3/3/2008 do site http://www.afropress.com/

Cantada em verso e prosa, a nossa multiculturalidade, nossa miscigenação e nossa malemolência tupiniquim estão seriamente ameaçadas pela intolerância religiosa que, de norte a sul, está dominando o país.

Não é preciso ser um grande estudioso para saber que num ambiente de desespero e de pouca cultura florescem com mais tranquilidade teses fundamentalistas e visões religiosas que apelam ao místico para buscar respostas para os problemas cotidianos das pessoas. Assim, não são as pessoas que têm problemas, é o diabo que faz com que elas tenham. Tire-se, pois, o diabo de suas vidas que tudo estará resolvido.

Por malandragem, conveniência, má fé e desrespeito, convencionou- se nos meios pentecostais e neo-pentecostais que a melhor representação do diabo como inimigo a ser combatido está nos cultos de matriz africana, onde elementos como Exu, que no sincretismo religioso – que, tal como jabuticaba e dólar na cueca, é coisa que só dá no Brasil -, é identificado com a figura do demonio. Portanto, onde grassa a ignorância, onde ninguém lê e se informa, até porque para entender o sincretismo é necessário o mínimo de estudo, o que se vê é, a cada dia, aumentar a necessidade de e combater o demônio, logo, combater as religiões de matriz africana.

Alguns anos atrás o bispo Van Helde, da Igreja Universal chutou uma imagem de santa na TV e isso virou um caso nacional. No entanto, a mesma Igreja Universal, todos os dias, a todo instante, ataca as religiões de matriz africana e tudo fica por isso mesmo.

Nas favelas cariocas pessoas que são ligadas ao candomblé e à umbanda estão sendo “convidadas” a se retirar por traficantes convertidos às igrejas evangélicas que, no entanto, continuam exercendo seu ofício, agora com as bençãos do Senhor, pois até mesmo cerimonias religiosas para traficantes estão sendo feitas nos morros por pessoas que se dizem pastores de igreja.

Não são poucos os casos onde babas e yalorixás têm sido expulsos, vítimas de violência física, mortos; terreiros atacadados e depredados, enfim, a intolerância religiosa faz parte do cardápio do dia.

Um ano atrás a Polícia Militar em Minas invadiu, a partir de uma denúncia anônima que ali funcionava um cativeiro, oIlê Unzo Atim Nzaze Iya Omin, ofendeu religiosos, agrediu pessoas e o caso só nao caiu no esquecimento porque organizações do Movimento Negro e religiosas agiram acionando os órgãos públicos tomaram as medidas cabíveis que o caso exigia.

Agora, mais recentemente, vem de Belo Horizonte um novo caso de intolerância religiosa. Depois de quatro meses para abrir uma conta bancária, necessária para recimento de recursos de projetos sociais e manutenção da própria casa de terreiro, a Mame’tu Kitaloiá da Associação Religiosa Ilê Jacutá de Iansã, acompanhada da coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira (CENARAB), Makota Celinha, ouviram de um gerente da Caixa Econômica a seguinte argumentação para a não abertura da conta corrente: “O conselho da agência após analisar a solicitação indeferiu o pedido da Associação, oferecendo a mesma apenas a possibilidade de abertura de uma conta poupança”. Indagado sobre o por quê disso, visto ser a Associação uma entidade registrada e inscrita no Conselho Nacional de Pessoas Jurídicas e se encontrar em dia com sua documentação e obrigações, a resposta dada foi a de que “assim como a senhora escolhe um banco para sua movimentação bancária, o banco escolhe o cliente com o qual deseja trabalhar. E neste caso a Caixa Econômica não se interessa por este tipo de cliente”. Indagado ainda se a motivação para esta postura, era pelo fato da Associação se tratar de um candomblé, o gerente respondeu que “a Caixa Econômica se sentia no direito de ter o cliente que lhe interessava, e que se quiséssemos o Conselho havia definido pela Conta Poupança”.

Na semana passada, a Prefeitura de Salvador resolveu derrubar o terreiro Oyá Onipó Neto, que está há 28 anos instalado no mesmo lugar. Dada a repercussão do caso, o prefeito retirou a ordem mas o estrago já estava feito. Grande parte do terreiro ruiu e com ele as imagens dos santos e os espaços sagrados do terreiro foram jogados destruídos. O prefeito ainda tentou um acordo com a mãe-de-santo da casa, mas organizações importantes do Movimento Negro e religiosas entenderam que o que estava se vendo ali era um grave caso de intolerância religiosa e racismo institucional, portanto, nao caberia apenas a resolução do caso deste terreiro específico, mas, antes de tudo uma retratação pública e a garantia da prefeitura de que situações como essa não mais se repetirão.

Para que isso ocorra o ogan do Ilê Oxumarê e coordenador geral do Coletivo de Entidades Negras, Marcos Rezende, entrou em greve de fome com o apoio de sua organização, de várias organizações do Movimento Negro e dos terreiros religiosos. Nos ultimos dias uma corrente de apoio e solidariedade tem se erguido de norte a sul do país a favor de uma resolução para o caso. No entanto, é visível a omissão de parlamentares, órgãos públicos (Seppir, por exemplo), grupos político-partidá rios, que simplesmente se calam, como se casos de intolerância religiosa não lhes dissessem respeito.

O Brasil está vivendo um momento complicado no que tange às relações étnico-raciais. No momento em que negros e negras passam a reivindicar espaços na educação formal, no mercado de trabalho, nos veículos de comunicação, na economia e nas esferas de poder, os racistas brasileiros e seus porta-vozes resolvem dizer que os negro é que estão querendo dividir o pais entre racistas e não racistas. Ou seja, quando a vítima de racismo se rebela, é, ela mesma, taxada de racista por aqueles que a discriminam. Uma total esquizofrenia social que, tal como a jabuticaba…

Enfim, o racismo a brasileira está na ordem do dia e com ele a intolerância religiosa. Atitudes urgentes precisam ser tomadas e não bastam apenas ficar nos discursos. É necessário que o Estado brasileiro se posicione, que órgãos públicos legislativos, executivos e judiciários estejam atentos ao que está acontecendo. Pois chegará o momento em que as vítimas começarão e se revoltar e passarão a reagir. E quando isso acontecer talvez será muito tarde para buscar soluções que já deveriam ter sido implementadas há mais de cem anos.

 

*   Coordenador do Coletivo de Entidades Negras – CEN/RJ – Integrante de MamaPress – Agência de Comunicações Afro e Indígena – Alemanha – Colunista do Afropress.

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