O evento se deu na Câmara Municipal de São Paulo, no dia 09 de novembro de 2007. Eis o discurso:
Primeiramente agradeço a Deus, o Altíssimo, a Olorun, Olodumnare, Nzambi Apongo, que nos permitiu estar aqui hoje reunidos.
Peço agô aos meus mais velhos!
Awurê, Kolofé, Mojuba, Motumbá, Saravá, Mokuiu, Aranauã.
Senhoras e Senhores, quem, um dia, poderia imaginar que Policiais Militares e Irmãos dos cultos afro-brasileiros estariam reunidos numa casa de respeitabilidade como a Câmara de Vereadores do município de São Paulo, a maior cidade da América Latina. E Policiais Militares de dois Estados, que aparentam estar longe, um do outro, mas que através do mundo espiritual, através dos nossos Orixás, Voduns, Inkices, Guias protetores, estão sempre ligados, o que reduz essa distância a apenas alguns centímetros.
Tenho, meus caros, que fazer uma observação histórica, pois temos que destacar a figura de três Tenentes da Polícia Militar, que foram figuras importantes no meio afro-brasileiro de São Paulo e nos antecederam nesse trabalho que ora iniciamos: o Tenente Vereda que, junto com Pai Jaú e Sebastião Costa, em 1941, fundou a primeira federação de Umbanda do Brasil, chamada “Liga de São Jerônimo”, Santo sincretizado com o Orixá Xangô e com o Inkici Nzazi; o Tenente Eufrásio, que junto com Pai Jamil Rachid, nas décadas de 60 e 70, foram baluartes na resistência à agressão às Casas de Umbanda e de Candomblé, este havia recém se instalado em nosso Estado; e o Tenente Hilton de Paiva que em 1976 fundou o Supremo Órgão de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo, o qual é presidido, hoje, pelo querido Tenente Miguel Aguirre.
Meus caros Irmãos e Amigos esta é uma ocasião histórica. O dia 09 de novembro de 2007 ficará registrado como uma das mais importantes datas relativas aos cultos afro-brasileiros. É nesta data que, finalmente, há uma reparação histórica insofismável nas terras paulistas. Deste dia em diante os Policiais Militares, adeptos ou simpatizantes dos cultos afro-brasileiros, poderão dizer que não estão mais sozinhos; saberão que não são mais pessoas invisíveis; que têm outros Irmãos que congregam dos mesmos ideais espirituais.
O Núcleo de Religiões de Matriz Africana da Polícia Militar da Bahia tem, hoje, um filho. O primeiro filho, o varão, o primogênito, que na cultura africana tem o dever e a responsabilidade de ajudar o pai, amparando-o. O Núcleo de Religiões Afro-brasileiras dos Policiais Militares do Estado de São Paulo será um filho que encherá de orgulho ao seu pai. Quanta honra nos dá em sermos o primeiro e esperemos que seja o primeiro de muitos. Quanta honra nos dá em sermos filho da Bahia, terra de todos os Santos, onde o culto aos nossos Orixás, Voduns, Inkices se estabeleceu e de onde partiu para as demais localidades brasileiras.
A criação do NAFROPM em São Paulo é, sem sombra de dúvidas, um grande passo para que a Polícia Militar do Estado de São Paulo se aproxime cada vez mais da população, estabelecendo elos de ligação que antes nunca se imaginou que pudessem existir.
O NAFROPM, portanto, vem ao encontro das necessidades que as “comunidades-terreiro” têm apresentado durante seus encontros e locutórios, e anseiam que a Polícia Militar seja mais próxima desta minoria religiosa, que tem sido invisível e despercebida, principalmente com a minoria que tem em seus próprios quadros, chamados, hoje, de PMs de Axé.
Acreditamos que a sociedade precisa se conscientizar que só poderemos construir uma cultura de paz com a participação de todos, sendo essencial que as pessoas se sintam responsáveis pelas questões que lhes digam respeito e acreditem no poder do trabalho em conjunto, pois o trabalho policial depende da população, quer seja na mediação de conflitos sociais, na prevenção do crime ou na preservação e manutenção da ordem pública. A Segurança Pública é um dever de todos e a sociedade é também responsável por todas as mazelas que são suportadas pelos demais integrantes da coletividade.
Em razão do lugar que ocupa entre o Estado e a sociedade, a Polícia Militar carece ser reconhecida como um órgão de grande importância na Administração Pública, face aos relevantes serviços que presta à sociedade. Por ser o espelho fiel dessa mesma sociedade que protege e, às vezes, oprime, o encaminhamento de soluções para melhoria de sua imagem e confiança deve trilhar, necessariamente, os mesmos caminhos de solução pelo qual passam os problemas da comunidade, de forma que os chamados “direitos humanos” não advenham apenas como um manto para se proteger aqui ou acolá, mas, em sua verdadeira essência, a cobertura do cenário no qual os Policiais, com risco de suas vidas, se esforçam para o cumprimento do dever. E, pois, para mudar, é necessário romper e derrogar alguns paradigmas, como os que estão sendo quebrados hoje.
Os Terreiros têm a incumbência ancestral de serem o pólo educacional de muitas crianças, que ficam em segurança, entregues por seus pais, enquanto saem para o trabalho diário. É em torno da Mãe ou do Pai de Santo que se reúnem, que aprendem as histórias dos antigos, que aprendem uma profissão, que aprendem sobre a mitologia africana, onde eles têm os exemplos de vida. A Polícia Militar deve participar disso também e acredito que isso, agora, passará a ser uma realidade.
Gostaria de agradecer imensamente ao Babalorixá Flávio de Oyá, que foi quem nos proporcionou esse encontro e deu o pontapé inicial para a criação do NAFROPM/SP; gostaria de agradecer a todos os filhos do Ilé Alaketú Axé Egbe Oya Ogun; aos Irmãos do NAFROPM da Bahia; aos Irmãos do NAFROPM de São Paulo, agradecer à Capitã Valdira, nossa Mestra de Cerimônias; agradecer ao Vereador Wadih Mutran pelo apoio; e a todos por estarem aqui hoje.
Modupé!
Muito obrigado
Mário Alves da Silva Filho – Presidente do NAFROPM SP
