Como nos defender da intolerância religiosa?
* Hédio Silva Jr. – 13/2/2008 do site www.afropress.com
Quando o querido amigo Matâmoride me propôs um artigo sobre este tema, a primeira pergunta que me ocorreu foi – como escrever sobre algo tão presente no dia a dia? Que se manifesta de tantas e diferentes formas? Que está presente na linguagem, nos gestos, no comportamento das pessoas, na televisão e assim por diante?
Vamos por partes, começando pela linguagem, pelas palavras.
Uma das primeiras federações que se tem notícia no Brasil foi a “União das Seitas Afro-brasileiras”, criada em Salvador, em 1937.
A palavra seita também aparece de vez em quando em alguns livros importantes, muito lidos pelo povo de Santo: na famosa obra “Orixás”, de Pierre Verger, por exemplo; ou no riquíssimo livro “Os Nagô e a Morte”, de Juana Elbein dos Santos.
Pois bem. Em 1946 a “União das Seitas Afro-brasileiras” foi substituída pela famosa “Federação Baiana do Culto Afro-brasileiro”, ou seja, o que seria “seita” passou a ser “culto”.
A influência da Bahia sobre o povo de Santo do Brasil inteiro faz com que estas duas palavras – seita e culto – até hoje estejam presentes no nosso cotidiano. Quantas vezes já não falamos ou ouvimos alguém tratando as Religiões Afro-brasileiras como “seita” ou como “culto”?
Ano passado, quando da visita do Papa ao Brasil, o publicitário Nizan Guanaes publicou artigo no jornal “Folha de São Paulo”, defendendo bravamente o Candomblé. No entanto, Nizan deixou escapar uma frase que merece atenção: “Candomblé não é religião, é culto”.
Qual o problema do uso destas palavras?
Seita é uma expressão pejorativa, discriminatória, inventada pelas religiões dominantes para desqualificar, para diminuir a importância das religiões consideradas minoritárias. Menos ofensiva do que “seita”, a palavra “culto” também é carregada de preconceito. “Culto afro-brasileiro” reduz as Religiões Afro-brasileiras às cerimônias, aos rituais, à liturgia, como se não houvesse uma doutrina, uma teologia, todo um pensamento que explica e dá sentido aos rituais. Aqui fica evidente a união entre racismo e intolerância religiosa: durante muito tempo se acreditou que nós negros serviríamos apenas para atividades físicas ou, no máximo, de entretenimento: jogadores de futebol, atletas, músicos, cantores. Mas não para atividades intelectuais como cientistas, executivos, médicos, advogados.
No campo religioso, a intolerância passa a idéia de que nas Religiões Afro-brasileiras não existe conhecimento, saberes, cultura, mas somente hábitos, práticas, rotinas. Isto é, não haveria inteligência nem cultura nas religiões trazidas pelos africanos. Mais uma vez o racismo: se os negros não têm inteligência como sua religião poderia ter?
Por esta razão o termo correto é religião; “Religiões Afro-brasileiras”, englobando assim as nações Nagô, Bantu, Jêje e a Umbanda.
Não há como nos defender da intolerância religiosa se não aprendemos a nos defender das armadilhas da linguagem, das palavras. Dou um outro exemplo: Quantas vezes já não ouvimos a palavra “cliente” para indicar simpatizantes das Religiões Afro-brasileiras, pessoas que não freqüentam as cerimônias mas acreditam na Religião e ali buscam resolver seus problemas.
Cliente é o mesmo que freguês, isto é, pessoa que usa produtos ou serviços de determinada empresa. Quer dizer então que as Religiões Afro-brasileiras seriam uma espécie de balcão de atendimento para quem chega com um punhado de moedas?
Quem conhece a dignidade, a integridade e coragem das Sacerdotisas e Sacerdotes que trouxeram nossa Religião até aqui, contra tudo e contra todos; quem acredita que Religião existe para fortalecer a comunidade e promover a paz, o bem estar e a felicidade; quem, enfim, acredita na grandiosidade dos Orixás não pode concordar com a idéia de transformar os Terreiros em mercadinhos, mercearias, lojinhas de miudezas, de secos e molhados.
Por isso, lutar contra a intolerância religiosa exige um olhar sobre o adversário, o intolerante, mas exige também um olhar sobre nós, sobre quantas vezes nós mesmos fabricamos a munição para o adversário.
Exagero da minha parte? Diga você, caro(a) leitor(a) se tenho ou não razão!
Nos próximos artigos falaremos sobre outras formas de intolerância religiosa e de como podemos nos defender delas.
* Advogado, Mestre em Direito Processual Penal e Doutor em Direito Constitucional pela PUC-SP, ex-Secretário de Justiça do Estado de São Paulo, é Coordenador Executivo do CEERT e integrante do Movimento “Guerreiros do Axé”.